Por que as pessoas traem? O que dizem as pesquisas
Por que as pessoas traem? Quando pesquisadores perguntam diretamente a quem traiu, aparecem motivos bem diferentes entre si: raiva, falta de amor, pouco compromisso, sensação de abandono, autoestima, desejo sexual, vontade de variedade e simples circunstância. Nenhum deles explica sozinho uma história, e entender um motivo não é o mesmo que aprová-lo.
Por que as pessoas traem, segundo a pesquisa
Por muito tempo, os estudos trabalharam com quatro motivos, mapeados por Kristen Barta e Susan Kiene em 2005, no Journal of Social and Personal Relationships: insatisfação, sensação de ser negligenciado, raiva e desejo sexual.
Em 2019, Dylan Selterman, Justin R. Garcia e Irene Tsapelas publicaram no Journal of Sex Research (volume 56, número 3) o artigo "Motivations for Extradyadic Infidelity Revisited". Eles aplicaram um questionário on-line a 495 pessoas, a maioria jovens adultos, que relataram uma infidelidade própria, e encontraram oito motivos estatisticamente distintos:
| Motivo | Como aparece no relato de quem traiu |
|---|---|
| Raiva | Mágoa ou revolta com o parceiro, às vezes depois de uma briga ou de uma traição sofrida |
| Falta de amor | A sensação de ter deixado de amar, ou de não ter certeza do sentimento |
| Baixo compromisso | Não se sentir de fato comprometido com aquela relação |
| Sentir-se negligenciado | Perceber que a atenção do parceiro está em qualquer outro lugar |
| Autoestima | Vontade de se sentir desejado, notado, popular |
| Desejo sexual | Desejo não atendido dentro da relação |
| Variedade | Curiosidade por outras experiências e outros parceiros |
| Circunstância | Situações específicas, como estar bêbado ou sob estresse, "sem pensar direito" |
A conclusão dos autores é a parte que costuma passar batida: os dados não cabem no modelo que explica toda infidelidade como sintoma de uma relação deficiente. Traços pessoais também apareceram associados aos motivos. A insegurança no vínculo afetivo, por exemplo, apareceu ligada a raiva, falta de amor, sensação de abandono, baixo compromisso e autoestima.
O motivo muda o rumo da história
Em 2021, os mesmos autores voltaram aos dados no Journal of Sex & Marital Therapy (volume 47, número 3), no artigo "What Do People Do, Say, and Feel When They Have Affairs?". Os motivos ligados à relação, como raiva com o parceiro e falta de amor, apareceram associados a casos mais longos, com mais encontros em público com a outra pessoa e maior chance de a relação principal acabar. Já os motivos de circunstância, como estresse e bebida, apareceram ligados a casos mais curtos, sexo menos satisfatório e menos chance tanto de contar quanto de terminar.
Traduzindo: um caso que nasceu de um mês difícil e outro que nasceu de anos de distância não são a mesma coisa, mesmo levando o mesmo nome.
Relação boa também não é garantia
A psicóloga americana Shirley Glass, referência no estudo da infidelidade, escreveu com Jean Coppock Staeheli o livro NOT "Just Friends" (Free Press, 2003). O argumento central é o de um caminho que quase ninguém planeja: a amizade próxima, no trabalho ou na internet, que vai ganhando intimidade e segredo até virar uma vida dupla. Não à toa, o livro termina com um guia sobre amizades seguras, dirigido a quem se considera bem casado.
A psicoterapeuta belga Esther Perel faz uma crítica parecida em Casos e casos: repensando a infidelidade (Objetiva, 2018; original de 2017). Na introdução, ela resume o discurso corrente sobre o assunto: a infidelidade deveria ser sempre sintoma de um relacionamento que deu errado, e quem tem tudo em casa não teria motivo para procurar fora. O livro inteiro questiona essa conta, e um dos capítulos se chama "Até pessoas felizes traem".
O que os motivos não explicam
Pesquisa descreve padrões de grupo. Ela não conta a sua história, nem a de quem está do seu lado.
- A amostra tem limites. Os 495 participantes eram, na maioria, jovens adultos dos Estados Unidos, recrutados numa universidade e em fóruns on-line, e poucos eram casados. Um casamento brasileiro de vinte anos é outro contexto.
- São relatos de memória. As pessoas responderam depois, já sabendo como a história terminou. O motivo lembrado nem sempre é o motivo que operava na hora.
- Os motivos não vêm sozinhos. Os questionários medem os oito separadamente, e a mesma pessoa pode pontuar alto em vários.
- Trair não prova falta de amor. "Falta de amor" é um dos oito motivos, não o denominador comum. Autoestima, variedade e circunstância aparecem em relações que a pessoa descreve como boas.
- E não dizem nada sobre quem foi traído. Não existe checklist do que essa pessoa deixou de fazer.
Motivo não é justificativa
Perel escreve, ainda na introdução, que "existe um mundo de diferença entre compreender e justificar". Vale para os dois lados desta conversa.
Entender por que aconteceu ajuda a decidir o próximo passo: conversar, mudar um acordo, terminar, procurar ajuda. O que o motivo não faz é apagar o efeito sobre quem não escolheu participar. Quem está em casa pode não ter a informação necessária para decidir sobre a própria vida, inclusive sobre a própria saúde: por isso prevenção e testagem regular entram na conta de quem tem mais de um parceiro. O texto sobre saúde sexual e prevenção mostra o básico.
Este texto não vai dizer o que fazer da sua vida: você é adulto e decide. Só vale olhar os dois lados da conta, e não apenas o motivo que parece explicar tudo.
Perguntas para quem sente vontade, ou já está vivendo isso
Não há gabarito. Elas funcionam melhor escritas, sem plateia.
- O que exatamente está faltando: desejo, atenção, novidade, a sensação de ser visto?
- Isso tem a ver com a relação, comigo ou com a fase que estou vivendo agora?
- Eu já falei sobre isso com a minha parceria? Se não, o que me impede?
- Um acordo diferente, conversado abertamente, faria sentido para nós dois? A não monogamia consensual existe e depende do consentimento de todo mundo, como explica relacionamento aberto.
- Estou disposto a lidar com os riscos, de saúde e de exposição, e com o efeito sobre a outra pessoa envolvida?
- O que eu quero que exista na minha vida daqui a um ano?
Se você pensa em continuar casado e viver algo fora disso, veja o que a lei muda em adultério é crime? e o que reunimos no espaço para quem é casado.
Quando procurar terapia
Terapia não decide por você nem dá veredito moral. Serve para entender o que você quer e por quê, e para lidar com o que vier.
- Individual: quando a vontade ou o caso ocupam a sua cabeça o tempo todo, quando o padrão se repete relação após relação, quando bate angústia, insônia ou culpa paralisante, ou quando você simplesmente não sabe o que quer.
- De casal: depois de uma descoberta, quando os dois querem entender o que aconteceu, quando existe vontade de reconstruir, ou quando a separação parece inevitável e vocês querem fazê-la com menos dano, sobretudo se há filhos.
Para encontrar alguém, confira se a pessoa tem registro ativo em um Conselho Regional de Psicologia: o Cadastro Nacional de Psicólogas e Psicólogos, do Conselho Federal de Psicologia, permite a busca por nome, CPF ou número do CRP. Se o custo for um problema, procure os serviços-escola de psicologia das universidades, que atendem a comunidade de graça ou a baixo custo, com estagiários supervisionados por profissionais. E, em momentos de crise, o CVV atende pelo 188, 24 horas, de graça.
Perguntas frequentes
Quem trai uma vez trai sempre?
Não é destino, mas o histórico pesa. Em estudo publicado em 2017 na Archives of Sexual Behavior, Kayla Knopp e colegas, da Universidade de Denver, acompanharam 484 adultos ao longo de duas relações seguidas: quem relatou envolvimento sexual fora da relação na primeira teve três vezes mais chance de relatar o mesmo na seguinte. Chance maior não é certeza, e o estudo não diz que a pessoa não muda.
O que conta como traição?
Depende do acordo de cada relação. Para uns, é sexo; para outros, uma conversa escondida já é. Perel dedica um capítulo inteiro à pergunta, e os pesquisadores de 2019 nem definiram o termo para os participantes, justamente porque o significado varia. Se você e sua parceria nunca conversaram sobre isso, o combinado que existe é imaginado, não acordado.
Por que tanta gente diz que traiu "sem motivo"?
Porque um dos oito motivos mapeados é justamente a circunstância: estar bêbado, sob estresse, fora da rotina, sem pensar direito. No estudo de 2021, esses casos tenderam a ser mais curtos, com menos chance de a pessoa contar e de a relação principal acabar. "Sem motivo" costuma querer dizer "sem um motivo grande".
Dá para superar uma traição?
Alguns casais seguem juntos e outros se separam, e nenhum dos dois caminhos é fracasso. No estudo de 2021, parte das pessoas continuou na relação principal e parte terminou, com diferenças ligadas ao motivo do caso. Terapia de casal ajuda a tomar essa decisão com menos ruído.
Este texto é informativo, reúne pesquisas e obras publicadas e não substitui acompanhamento psicológico. Se o assunto está pesando, procurar um psicólogo ou uma psicóloga é um bom próximo passo.