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Traição e fidelidade

Por que as pessoas traem? O que dizem as pesquisas

Por Equipe Sigilus · Atualizado em · 8 min de leitura

Por que as pessoas traem? Quando pesquisadores perguntam diretamente a quem traiu, aparecem motivos bem diferentes entre si: raiva, falta de amor, pouco compromisso, sensação de abandono, autoestima, desejo sexual, vontade de variedade e simples circunstância. Nenhum deles explica sozinho uma história, e entender um motivo não é o mesmo que aprová-lo.

Por que as pessoas traem, segundo a pesquisa

Por muito tempo, os estudos trabalharam com quatro motivos, mapeados por Kristen Barta e Susan Kiene em 2005, no Journal of Social and Personal Relationships: insatisfação, sensação de ser negligenciado, raiva e desejo sexual.

Em 2019, Dylan Selterman, Justin R. Garcia e Irene Tsapelas publicaram no Journal of Sex Research (volume 56, número 3) o artigo "Motivations for Extradyadic Infidelity Revisited". Eles aplicaram um questionário on-line a 495 pessoas, a maioria jovens adultos, que relataram uma infidelidade própria, e encontraram oito motivos estatisticamente distintos:

MotivoComo aparece no relato de quem traiu
RaivaMágoa ou revolta com o parceiro, às vezes depois de uma briga ou de uma traição sofrida
Falta de amorA sensação de ter deixado de amar, ou de não ter certeza do sentimento
Baixo compromissoNão se sentir de fato comprometido com aquela relação
Sentir-se negligenciadoPerceber que a atenção do parceiro está em qualquer outro lugar
AutoestimaVontade de se sentir desejado, notado, popular
Desejo sexualDesejo não atendido dentro da relação
VariedadeCuriosidade por outras experiências e outros parceiros
CircunstânciaSituações específicas, como estar bêbado ou sob estresse, "sem pensar direito"

A conclusão dos autores é a parte que costuma passar batida: os dados não cabem no modelo que explica toda infidelidade como sintoma de uma relação deficiente. Traços pessoais também apareceram associados aos motivos. A insegurança no vínculo afetivo, por exemplo, apareceu ligada a raiva, falta de amor, sensação de abandono, baixo compromisso e autoestima.

O motivo muda o rumo da história

Em 2021, os mesmos autores voltaram aos dados no Journal of Sex & Marital Therapy (volume 47, número 3), no artigo "What Do People Do, Say, and Feel When They Have Affairs?". Os motivos ligados à relação, como raiva com o parceiro e falta de amor, apareceram associados a casos mais longos, com mais encontros em público com a outra pessoa e maior chance de a relação principal acabar. Já os motivos de circunstância, como estresse e bebida, apareceram ligados a casos mais curtos, sexo menos satisfatório e menos chance tanto de contar quanto de terminar.

Traduzindo: um caso que nasceu de um mês difícil e outro que nasceu de anos de distância não são a mesma coisa, mesmo levando o mesmo nome.

Relação boa também não é garantia

A psicóloga americana Shirley Glass, referência no estudo da infidelidade, escreveu com Jean Coppock Staeheli o livro NOT "Just Friends" (Free Press, 2003). O argumento central é o de um caminho que quase ninguém planeja: a amizade próxima, no trabalho ou na internet, que vai ganhando intimidade e segredo até virar uma vida dupla. Não à toa, o livro termina com um guia sobre amizades seguras, dirigido a quem se considera bem casado.

A psicoterapeuta belga Esther Perel faz uma crítica parecida em Casos e casos: repensando a infidelidade (Objetiva, 2018; original de 2017). Na introdução, ela resume o discurso corrente sobre o assunto: a infidelidade deveria ser sempre sintoma de um relacionamento que deu errado, e quem tem tudo em casa não teria motivo para procurar fora. O livro inteiro questiona essa conta, e um dos capítulos se chama "Até pessoas felizes traem".

O que os motivos não explicam

Pesquisa descreve padrões de grupo. Ela não conta a sua história, nem a de quem está do seu lado.

Motivo não é justificativa

Perel escreve, ainda na introdução, que "existe um mundo de diferença entre compreender e justificar". Vale para os dois lados desta conversa.

Entender por que aconteceu ajuda a decidir o próximo passo: conversar, mudar um acordo, terminar, procurar ajuda. O que o motivo não faz é apagar o efeito sobre quem não escolheu participar. Quem está em casa pode não ter a informação necessária para decidir sobre a própria vida, inclusive sobre a própria saúde: por isso prevenção e testagem regular entram na conta de quem tem mais de um parceiro. O texto sobre saúde sexual e prevenção mostra o básico.

Este texto não vai dizer o que fazer da sua vida: você é adulto e decide. Só vale olhar os dois lados da conta, e não apenas o motivo que parece explicar tudo.

Perguntas para quem sente vontade, ou já está vivendo isso

Não há gabarito. Elas funcionam melhor escritas, sem plateia.

Se você pensa em continuar casado e viver algo fora disso, veja o que a lei muda em adultério é crime? e o que reunimos no espaço para quem é casado.

Quando procurar terapia

Terapia não decide por você nem dá veredito moral. Serve para entender o que você quer e por quê, e para lidar com o que vier.

Para encontrar alguém, confira se a pessoa tem registro ativo em um Conselho Regional de Psicologia: o Cadastro Nacional de Psicólogas e Psicólogos, do Conselho Federal de Psicologia, permite a busca por nome, CPF ou número do CRP. Se o custo for um problema, procure os serviços-escola de psicologia das universidades, que atendem a comunidade de graça ou a baixo custo, com estagiários supervisionados por profissionais. E, em momentos de crise, o CVV atende pelo 188, 24 horas, de graça.

Perguntas frequentes

Quem trai uma vez trai sempre?

Não é destino, mas o histórico pesa. Em estudo publicado em 2017 na Archives of Sexual Behavior, Kayla Knopp e colegas, da Universidade de Denver, acompanharam 484 adultos ao longo de duas relações seguidas: quem relatou envolvimento sexual fora da relação na primeira teve três vezes mais chance de relatar o mesmo na seguinte. Chance maior não é certeza, e o estudo não diz que a pessoa não muda.

O que conta como traição?

Depende do acordo de cada relação. Para uns, é sexo; para outros, uma conversa escondida já é. Perel dedica um capítulo inteiro à pergunta, e os pesquisadores de 2019 nem definiram o termo para os participantes, justamente porque o significado varia. Se você e sua parceria nunca conversaram sobre isso, o combinado que existe é imaginado, não acordado.

Por que tanta gente diz que traiu "sem motivo"?

Porque um dos oito motivos mapeados é justamente a circunstância: estar bêbado, sob estresse, fora da rotina, sem pensar direito. No estudo de 2021, esses casos tenderam a ser mais curtos, com menos chance de a pessoa contar e de a relação principal acabar. "Sem motivo" costuma querer dizer "sem um motivo grande".

Dá para superar uma traição?

Alguns casais seguem juntos e outros se separam, e nenhum dos dois caminhos é fracasso. No estudo de 2021, parte das pessoas continuou na relação principal e parte terminou, com diferenças ligadas ao motivo do caso. Terapia de casal ajuda a tomar essa decisão com menos ruído.

Este texto é informativo, reúne pesquisas e obras publicadas e não substitui acompanhamento psicológico. Se o assunto está pesando, procurar um psicólogo ou uma psicóloga é um bom próximo passo.