Sextorsão: o que fazer se ameaçarem vazar suas fotos
Se alguém está ameaçando divulgar fotos ou vídeos íntimos seus, respire fundo. O que está acontecendo tem nome, a culpa não é sua e existe um caminho claro para agir. Abaixo estão os passos, na ordem, e onde buscar ajuda no Brasil.
O que é sextorsão
Sextorsão é quando alguém usa imagens íntimas, reais ou que diz ter, para chantagear. A pessoa ameaça publicar o material ou enviá-lo para a sua família, seus amigos ou seu trabalho se você não pagar, não mandar mais fotos ou não fizer o que ela quer.
Em apps de encontro, o roteiro costuma ser parecido:
- Intimidade rápida: um perfil atraente puxa conversa, elogia muito e cria proximidade em pouco tempo.
- Mudança de aplicativo: logo vem a sugestão de continuar em outro app de mensagens ou numa chamada de vídeo.
- Pedido de fotos: a pessoa pede imagens íntimas, ou grava a chamada sem avisar.
- A virada: de repente o tom muda, chegam prints dos seus seguidores ou contatos e um valor para "não divulgar".
Às vezes a pessoa nem tem o material que diz ter e aposta só no medo. Existe também uma variação em que alguém se apresenta como parente ou como policial, diz que a pessoa da conversa era menor de idade e cobra dinheiro para "resolver". Autoridade de verdade não negocia acordo por mensagem nem por Pix. Em todos esses casos, os passos abaixo valem do mesmo jeito.
O que fazer agora, passo a passo
- Não pague. Pagar não garante que o material seja apagado e costuma gerar novas cobranças, porque mostra que a ameaça funciona. Também não envie mais fotos ou vídeos, mesmo que prometam que é "a última vez".
- Pare de responder e não negocie. Não discuta, não implore e não ameace de volta. Silêncio é uma resposta válida. Só não apague a conversa ainda: ela é a sua principal prova.
- Guarde provas. Faça prints que mostrem o nome e a foto do perfil, as mensagens com data e hora, links, chaves Pix, números de telefone, dados bancários e qualquer outra conta que a pessoa tenha usado. Salve uma cópia fora do celular, num lugar que só você acessa.
- Denuncie e bloqueie o perfil na plataforma. Faça isso no app de encontros e em qualquer outra rede ou aplicativo em que a pessoa falou com você. A denúncia também ajuda a proteger outras pessoas. No Sigilus, denunciar já bloqueia na hora, e a equipe analisa o caso.
- Registre ocorrência. Vá a uma delegacia, use a delegacia eletrônica do seu estado ou procure uma delegacia especializada em crimes cibernéticos, se houver na sua cidade. Leve as provas que você reuniu.
- Se algo for publicado, peça a remoção. Guarde o link e um print da publicação e depois use a denúncia de cada site ou rede social, informando que o conteúdo é íntimo e foi publicado sem a sua autorização. Pelo Marco Civil da Internet (art. 21), a plataforma que, depois de avisada pela vítima, não remove esse conteúdo pode ser responsabilizada.
- Conte para alguém de confiança. Uma pessoa próxima pode ajudar a organizar as provas, ir junto à delegacia e, se for preciso, avisar amigos e familiares para não abrirem nada enviado por perfis desconhecidos.
Se puder, procure também um advogado ou uma advogada. Ninguém pode garantir como a pessoa do outro lado vai agir, mas seguir esses passos coloca você numa posição bem mais segura do que ceder à chantagem.
Se houver menor de idade envolvido
Se a vítima tem menos de 18 anos, aja com urgência. Imagens sexuais de crianças e adolescentes são crime grave pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
- Se você tem menos de 18 anos, conte agora para um adulto de confiança, mesmo com medo da reação. Você é a vítima e merece proteção.
- Se você é a pessoa adulta que soube do caso, denuncie pelo Disque 100 ou à polícia. Em emergência, ligue 190. A SaferNet Brasil também orienta.
- Nunca encaminhe as imagens, nem para denunciar. Informe o perfil, o número ou o link às autoridades.
Você não tem culpa
Ter enviado uma foto íntima para alguém em quem você confiava não é motivo de vergonha. Errado é chantagear, e divulgar imagens íntimas sem consentimento é crime no Brasil (art. 218-C do Código Penal).
É normal sentir medo, raiva, vergonha ou vontade de sumir. Esses sentimentos são reações a uma violência, não um retrato de quem você é. Evite tomar decisões grandes no calor do momento e cuide de você nos próximos dias.
- CVV, 188: apoio emocional, 24 horas, de graça, para quando você precisar conversar.
- Ligue 180: atende mulheres em situação de violência, inclusive quando quem ameaça é um ex ou alguém com quem ela se relaciona. Funciona 24 horas, de graça.
- Disque 100: recebe denúncias de violações de direitos humanos, inclusive contra pessoas LGBTQIA+, por exemplo quando a ameaça é expor a sua orientação ou identidade.
- 190: se você estiver em perigo imediato.
Se aparecerem pensamentos de se machucar, ligue para o 188 agora ou peça para alguém ficar com você.
Como se proteger daqui para frente
Quando a poeira baixar, alguns hábitos ajudam a evitar que isso se repita.
- Desconfie da pressa. Intimidade instantânea, pedido de fotos logo no começo e insistência para mudar de aplicativo são sinais clássicos. Veja outros no guia de golpes em apps de namoro.
- Confira se a pessoa é real. Perfil perfeito demais, câmera que "nunca funciona" e histórias que não fecham merecem atenção. O guia sobre como identificar perfil falso mostra o que observar.
- Feche suas listas. Deixe privadas as listas de amigos e seguidores nas redes sociais. Assim fica mais difícil alguém montar uma lista de pessoas próximas a você.
- Cuidado com chamadas de vídeo íntimas com quem você acabou de conhecer: elas podem ser gravadas sem aviso.
- Se for trocar fotos, proteja-se. Sem rosto, sem tatuagens e sem fundo reconhecível. Veja mais em fotos íntimas: privacidade e lei.
A sextorsão aposta no seu silêncio e na sua pressa. Quando você para de responder, guarda as provas e pede ajuda, retoma o controle do que está ao seu alcance. Você não precisa resolver tudo hoje: comece pelo primeiro passo.