Ameaçaram contar ao seu parceiro? O que fazer diante de chantagem
Alguém ameaça contar ao seu parceiro, ou expor suas conversas, se você não pagar. Chantagem por causa de traição é crime de extorsão, e o que fazer é o contrário do que o medo manda: não pagar, guardar tudo e procurar a polícia. Você é a vítima, mesmo tendo algo a esconder.
Como a ameaça costuma chegar
O roteiro varia pouco. Depois de algumas conversas, ou de um encontro, a outra pessoa descobre (ou já sabia) que você é casado. Então o tom muda e chega um valor, com prazo curto e alguma prova de que ela sabe onde doer: o nome do seu parceiro, o perfil da sua irmã, o print da conversa.
Às vezes quem cobra é a pessoa com quem você saiu; às vezes alguém que diz ser parente ou parceiro dela. Se a ameaça envolve fotos ou vídeos íntimos, os passos são outros e estão em o que fazer em caso de sextorsão.
Chantagem sobre traição é crime?
É. O artigo 158 do Código Penal define extorsão como constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, para obter vantagem econômica indevida, com pena de reclusão de quatro a dez anos, e multa. Quando não há pedido de dinheiro, a conduta pode se enquadrar no artigo 147, o crime de ameaça, apurado só se a vítima pedir.
Os tribunais já julgaram esse cenário. Em 2024, a 8ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo manteve a condenação de uma mulher a quatro anos e oito meses de reclusão por extorquir um homem casado que conheceu num site de relacionamento: para que ela não contasse à esposa dele e não repassasse fotos, ele transferiu mais de R$ 100 mil, e os comprovantes do Pix foram peça central da prova (processo 1505846-65.2023.8.26.0050, IBDFAM, março de 2024). Ter traído não tira de você a proteção da lei.
Por que não pagar
Pagar não compra silêncio: entrega a informação de que a ameaça funciona. Em outro caso do TJSP (IBDFAM, março de 2022), a acusada exigiu R$ 150 mil para não enviar vídeos à esposa do homem com quem se relacionava; houve acordo em R$ 140 mil e, logo depois, novas ameaças cobrando mais R$ 10 mil.
Também não adianta negociar, implorar ou ameaçar de volta. E não é preciso pagar para existir crime: em agosto de 2026, a Terceira Seção do STJ julgou um caso em que as vítimas, em vez de pagar, chamaram a polícia, e o autor foi preso em flagrante. O prazo que o chantagista deu é dele, não seu.
Guarde as provas antes de bloquear
É o passo que se pula por pressa de ver a ameaça sumir da tela. Reúna, com data e hora visíveis:
- prints da conversa inteira, do começo do contato até a ameaça;
- a tela do perfil em cada app ou rede: apelido, foto e nome de usuário;
- o que foi pedido: valor, chave Pix, titular da conta, links de pagamento, telefones e e-mails;
- comprovantes, se você já pagou, e mensagens enviadas a terceiros, se a ameaça começou a ser cumprida.
Salve uma cópia fora do celular, num lugar que só você abre. E faça isso antes de bloquear: em muitos aplicativos, o bloqueio apaga a conversa. Mensagens também podem ser apagadas por quem enviou, ou sumir sozinhas quando há timer: o print vale mais quanto mais cedo for feito.
Quando vale uma ata notarial
Na ata notarial, um tabelião de notas registra com fé pública o que ele mesmo viu. Está no artigo 384 do Código de Processo Civil, que permite incluir imagens e sons de arquivos eletrônicos, e é atribuição exclusiva dos tabeliães (Lei 8.935/1994, artigo 7º). Em artigo do Colégio Notarial do Brasil de agosto de 2023, o tabelião Felipe Leonardo Rodrigues explica que o profissional confere as mensagens no próprio aparelho e que só quem participou da conversa pode pedir a ata. Ela é paga e não é exigida para registrar ocorrência: seus prints já servem.
Onde denunciar
- Delegacia. Leve as provas organizadas e conte a história inteira. O registro é seu e não exige avisar ninguém da sua casa. Onde houver, procure a delegacia especializada em crimes cibernéticos.
- Delegacia online, se o seu estado tiver. No Rio, a Delegacia Online da Polícia Civil aceita um pré-registro pela internet, que a unidade da sua área transforma em registro. Conferida em setembro de 2026, a lista de ocorrências traz "injúria, ameaça ou calúnia", mas não extorsão: se o dinheiro é o centro do caso, vá a uma delegacia.
- Seu banco, se houve Pix. Peça a contestação no aplicativo e diga que foi coagido. O guia do Banco Central sobre o Mecanismo Especial de Devolução (MED) prevê contestação em casos de fraude, golpe ou crime, inclusive coerção, mesmo quando foi você quem autorizou. A devolução depende de o dinheiro ainda estar lá, então cada hora conta.
- As plataformas envolvidas, onde a conversa começou e para onde migrou. Guarde o protocolo.
Se a conversa começou no Sigilus
Faça os prints primeiro, porque bloquear apaga a conversa. Depois, no chat, use Denunciar: dá para escolher o motivo "Assédio, ameaça ou ofensa" e marcar a opção de anexar as últimas mensagens, que só a moderação vê. A denúncia bloqueia a pessoa na hora, ela não sabe quem denunciou, e alguém da equipe analisa cada caso; perfis com várias denúncias ficam ocultos até a análise.
Duas honestidades. Nenhum app impede que alguém tire print do que você escreveu. E, se a polícia investigar, há caminho legal: registros de acesso ficam guardados por seis meses, cifrados, como exige o Marco Civil da Internet, e só são entregues mediante ordem judicial ou requisição de autoridade competente. Não exclua a conta no calor do momento: a exclusão apaga perfil, fotos, matches e mensagens na hora.
Se a pessoa cumprir a ameaça
O crime não deixa de existir porque a ameaça foi cumprida. Siga com o registro, agora com as provas da exposição.
- Conversas publicadas: salve links e prints e peça a remoção a cada plataforma. Divulgar mensagens privadas pode gerar dever de indenizar, decidiu a Terceira Turma do STJ em agosto de 2021, no Recurso Especial 1.903.273/PR.
- Imagem íntima divulgada: o caso envolve o artigo 218-C do Código Penal e os passos do texto sobre sextorsão.
- Mensagem enviada ao seu parceiro: o que a lei diz sobre traição é bem mais estreito do que o senso comum, como mostra adultério é crime?.
Há quem prefira contar antes, para tirar da chantagem o único poder que ela tem. É decisão só sua, e não precisa acontecer no prazo que outra pessoa inventou: escolha o momento, sem plateia e sem pressa. O CVV atende pelo 188, 24 horas, de graça.
Como reduzir o risco daqui para frente
- Vá devagar com o que identifica você: sobrenome, trabalho, bairro exato, número pessoal e redes sociais podem esperar. Desconfie de quem pergunta demais sobre a sua família e a sua rotina.
- Faça uma chamada de vídeo curta antes de marcar, para ver se a pessoa é quem diz ser.
- Cuide das fotos: sem rosto, aliança, tatuagem, crachá ou fundo reconhecível. No Sigilus, "Borrar minhas fotos" embaça as imagens para quem ainda não deu match, e o GPS é removido de toda foto.
- Mantenha a conversa no app enquanto não conhece a pessoa: assim a denúncia pode incluir as mensagens.
Mais cuidados em como criar um perfil discreto e em segurança em encontros.
Se a ameaça chegou hoje
- Não pagar e não negociar.
- Printar conversa, perfil e dados de pagamento.
- Guardar uma cópia fora do celular.
- Denunciar e bloquear o perfil.
- Registrar ocorrência.
- Avisar o banco, se já transferiu algum valor.
Perguntas frequentes
Se eu pagar, a pessoa apaga os prints?
Não há como saber, e os processos mostram o contrário: quem paga costuma ser cobrado de novo. Nenhuma promessa de apagar é verificável.
Preciso contar ao meu parceiro para denunciar?
Não. O registro de ocorrência é seu e não notifica a sua família. Se o caso virar processo, você pode ser chamado a depor: vale perguntar a um advogado como isso funciona.
E se o perfil sumiu depois da ameaça?
Ainda vale denunciar: prints, números, e-mails e a chave Pix ajudam a investigação a chegar ao titular da conta.
Este texto é informativo e não substitui a orientação de um advogado ou de uma advogada. Em perigo imediato, ligue 190.